Terça-feira, Novembro 14, 2006

Vestígios

noutros tempos

quando acreditávamos na existência da lua

foi-nos possível escrever poemas e

envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído

pelas salivas proibidas - noutros tempos

os dias corriam com a água e limpavam

os líquenes das imundas máscaras


hoje

nenhuma palavra pode ser escrita

nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras

ou se expande pelo corpo estendido

no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se


onde se pode - num vocabulário reduzido e

obsessivo - até que o relâmpago fulmine a língua

e nada mais se consiga ouvir



apesar de tudo

continuamos a repetir os gestos e a beber

a serenidade da seiva - vamos pela febre

dos cedros acima - até que tocamos o místico

arbusto estelar

e

o mistério da luz fustiga-nos os olhos

numa euforia torrencial


Al Berto

2 Comments:

Blogger Tânia said...

Bom regresso.
Eu sou das que não se cala, por isso considero que não há palavras que não possam ser escritas ou ditas. Acredito sim que às vezes o silêncio fala por si e é ele próprio uma entidade, um manifesto até.
Beijocas

3:55 PM  
Blogger Sofia said...

Gostei minha tia!

bjs

8:20 AM  

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